O Amanhã sem Respostas

O amanhã sem respostas

Eu ansiava por seu regresso e pelas respostas que ele traria. Achei que seria o suficiente. Estava enganada.

Cada segundo da contagem regressiva parecia mais lento que o normal. Era difícil me concentrar em qualquer tarefa. Minha atenção voltava-se para o momento de sua chegada.

Pode parecer um exagero, uma vez que só se passaram alguns meses de sua partida. Entretanto, para ele, durou cerca de cinco anos. O que tornava tudo ainda mais excitante.

Seu retorno não seria apenas um alento para meu coração apaixonado. Traria de volta meu companheiro de conquistas e, como no caso daquela viagem, experimentações.

Será que seus cabelos já teriam salpicos acinzentados? Quais seriam os efeitos da passagem do tempo nessa nova dimensão? Será que ele se adaptou à vida naquele mundo estranho? Sentia minha falta?

Pensar nisso me fazia sorrir. É claro que ele sentia. Era louco por mim e eu por ele.

Observei a quietude à minha volta, enquanto esperava. Durante suas viagens, apenas o silêncio me acompanhava. Eu desejava ter um filho, assim não me sentiria tão só, mas ele não. Dizia ser muito egoísta o ato de submeter uma vida inocente às crueldades do mundo, apenas por não saber lidar com a solidão temporária.

Contrariada, eu concordava. Em todas suas ações, ele pensava nas consequências que isso me traria. Sempre pensava em mim, antes de pensar em si mesmo. Por isso, tinha autoridade para definir o que era egoísmo.

Eu aguardei no quintal, onde a cápsula desaparecera no campo dimensional, onde ele deveria regressar. E onde ele não apareceu.

Quando a contagem terminou, o local permaneceu quieto.

Meu coração disparou assim que o silêncio foi rompido e o barulho estridente ressoou.

Da varanda, visualizei um clarão, logo depois da curva da estrada. Não havia como confundir aquele som. A trilha sonora que traria minhas respostas.

Tentei me convencer de que não precisava entrar em pânico. O local de aterrissagem poderia sofrer pequenas alterações de acordo com o peso dentro da máquina.

Pode ser que ele tenha engordado um pouco. Afinal, foram cinco anos longe da minha comida, o que seria um incentivo para comer mais. Bem que ele precisava de mais carne naquele corpo ossudo. Mas isso não importava. Eu o aceitaria de qualquer forma.

Corri em sua direção. À medida que me aproximava, meu coração parecia sambar contra meu peito, relembrando a música de um desfile de carnaval que assistimos em um mundo distante.

Os músculos que sustentavam meu sorriso pareciam confusos com a ordem do meu cérebro. Nunca haviam trabalhado tanto.

Ao fazer a curva, avistei a cápsula sem sinais de danos físicos, o que foi o suficiente para varrer qualquer temor da minha mente.

Cedo demais.

Aproximei-me e percebi que não havia movimento ali. Talvez ele estivesse sob um dos efeitos colaterais, que incluía breve confusão mental. Me adiantei para abrir a porta.

Eu o vi. Estava com uma barba aparada, um contraste com o rosto liso que ele costumava manter. Suas roupas também não combinavam com a imagem dele em minha mente. Vestia um macacão, com proteções nos cotovelos e joelhos, que trazia um símbolo estranho bordado no peito. Era um uniforme.

Apesar da diferença de quando havia partido, estava em casa. Isso deveria bastar.

Sobre seu peito havia um peso extra. Eis o motivo da mudança de local de aterrissagem da cápsula. Não havia engordado, mas carregava consigo um bebê.

Meu marido se mexeu. Retirei a criança desacordada de sobre ele, para aliviá-lo. Preferia não ter feito. Não que isso mudaria alguma coisa, mas o que vi fez meu coração se despedaçar.

O tórax do meu parceiro de trabalho, amigo, professor, companheiro e amante estava dilacerado.

Ele disse meu nome. Sua voz soava muito fraca. Tive dúvidas se o chamado não seria uma alucinação da minha mente.

Coloquei a criança sobre o assoalho e voltei para ele, que abriu os olhos, sorriu e pegou minha mão.

Sinto muito por tudo. Eu te amo! — disse, entre tosses ensaguentadas. — Não sabe como almejei ver seu rosto novamente. Você é tão linda! — Outra tosse. — Me perdoe.

Ele tocava minha face, sujando-a de sangue. Senti minhas lágrimas correrem, mas não consegui dizer nada. Apenas segurava seu rosto entre minhas mãos, rezando — mesmo não acreditando em nenhum deus — para que aquilo fosse um pesadelo.

Preciso que proteja esse bebê, é meu filho…

Dito isso, a vida se foi de seu corpo, levando consigo minhas respostas.

Deixando mais perguntas.

O Amanhã sem Respostas

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